sexta-feira, 16 de abril de 2010

Paralisia


Trajava uma roupa toda preta com acessórios que realçavam a maquiagem carregada. Acenou para um táxi, estava cansada demais para ir embora de outra forma. Ao entrar indicou o caminho e ansiava a hora de chegar em casa, era aquele momento que tudo o que se pretende é água quente e sossego.

Com sua doce simpatia pediu ao taxista para acender um cigarro. Notando a sua angústia ele não negou, ainda tentou render algum assunto, mas claramente dispersa ela negou-se a conversar. O carro em alta velocidade pela avenida acompanhava a velocidade dos seus pensamentos. As luzes dos postes pareciam borrões que iluminavam pouquíssimo o seu rosto escondido pela penumbra do carro.

Lembrou do dia que conheceu o homem de pele macia, olhar doce e risada cativante, do primeiro beijo que dele ganhou. Arrepiou. O olhar que a fez despertar para o amor, para o primeiro amor, apesar de não estar motivada a amar. Quem sabe poderia ser diferente? Abraçou-lhe, sentiu frio bom na barriga. Algum tempo depois amou e há muito não sentia prazer daquela maneira. Naquele momento sentiu a sua alma ser levada para um lugar que só sabe quem já fez amor alguma vez na vida.

Agora se lembrava de alguns minutos atrás. O mesmo olhar que lhe convidou a amar, dizia que agora já não podia mais ser. Contorceu-se de dor. Engoliu seco o choro, levantou-se calmamente, sorriu - apesar da desgraça - e com os olhos úmidos não disse uma só palavra. Retirou da mão direita o anel dourado e delicadamente o pôs sobre a mesa. Retirou-se. Não sobraram palavras, não havia o que ser dito, era assim que tinha que ser.

Nem perceberá quando o carro parou e enfim escutou: “chegamos”. Retirou de sua bolsa de mão a quantia exata, pagou, despediu-se, agradeceu e saiu do carro buscando alguma resposta que lhe confortasse o coração. Sua cabeça estava estourando de dor e ao entrar pela porta da sala, desmontou-se no sofá. Retirou as botas pesadas e sentiu o chão frio regular os seus pés quentes. Olhou para o teto e uma lágrima desceu para limpar a sua maquiagem e sujar as suas maçãs rosadas. Ficou ali um tempo pequeno, logo se levantou, tirou toda a sua roupa. Abriu o chuveiro e quis a temperatura mais quente, foi aos poucos colocando cada parte do seu corpo em baixo da água quentíssima. Em pouco tempo o banheiro esfumaçou. Acariciava lentamente o seu corpo com o sabonete, sentia a água do chuveiro se misturar com a água que rolava dos seus olhos. Enrolou-se na toalha, sentou na beirada da cama e não conseguia parar de pensar. Daquela maneira adormeceu, lembrando que já havia morrido e matado muitas vezes por amor.

2 Palpites relevantes:

Inês | 16 de abril de 2010 22:44

Opaopaopa.
De quem estamos falando tanto?
(Beijos.)

A. Reiffer | 16 de abril de 2010 22:54

Gostei da intensidade do texto. Abraços!